20.2.10

Grand Coulee, a Belo Monte dos Americanos



A construção de uma usina hidrelétrica modifica o meio ambiente e altera a vida de um grande número de pessoas. Se índios estão envolvidos a coisa toda é ainda pior pois conflitos seculares voltam à mesa já na apresentação do projeto. A reparação material é a única alternativa para os prejudicados, para danos nem sempre tangíveis.

Esta introdução poderia ser o começo de mais um post sobre a polêmica da contrução da usina Belo Monte, em Altamira, no estado do Pará. Não é. Vou contar a história de um problema bem americano: a construção da usina de Grand Coulee, no estado de Washington. Vamos chamar aqui esta usina de "a prima rica de Belo monte". As coincidências nos dois casos são bem curiosas.

O Columbia é o maior rio do noroeste dos EUA, nasce nas montanhas do Canadá e deságua no oceano pacífico. O curso total é de 2000 km. A concepção da usina, seus desafios técnicos e questões ambientais começaram nos anos 20. Sua função mais nobre seria a irrigação, seguida por produção de energia elétrica e suporte à navegação. 13 anos depois as obras começaram, sendo o projeto mais inclinado à produção de energia elétrica, com sua capacidade original ampliada. Uma grande obra como esta teve grande apelo "político" pois a geração de empregos em uma américa pós grande depressão caia como uma luva. Ná época o governo chegou a contratar artistas que compuseram músicas sobre a usina, para convencimento da população, na base da apelação (...trazendo luz para a escuridão).

A construção foi finalizada em 1942, logo após a entrada dos EUA na segunda guerra mundial. Então a meta inicial de fomentar a irrigação deu lugar ao apoio total às usinas de alumínio (grandes consumidoras de eletricidade) para a fabricação de aviões. O processamento de plutônio também foi viabilizado na região por conta do fornecimento garantido de energia.

Os danos ambientais

Entre todos os danos óbvios, talvez o mais sentido na região seja o da diminuição ou extinção de alguns tipos de peixes típicos, incluindo o salmão. A inviabilização da piracema acabou com muitas espécies, o que nos liga ao item seguinte...

Os índios


A região do rio Colúmbia teve muitas reservas indígenas reduzidas e ou deslocadas por conta da construção da usina. Muitos dos rituais milenares destas tribos eram ligados aos peixes e seus santuários de desova, totalmente eliminados. 85 km2 foram inundados, destruindo locais de caça e cemitérios (alguns foram relocados). No lado branco da coisa não foi diferente. Uma cidade inteira (Kettle Falls) foi transferida.

Índios Spokane: não enfiaram o facão no pescoço de ninguém e hoje estão com a grana.

O grupo que representava as demandas dos índios (uma espécie de conselho tribal) não teve muita sorte logo nas primeiras audiências. A primeira reunião com o governo federal na época foi cancelada por um fato totalmente inédito. No mesmo dia o Japão bombardeava Pearl Harbor. E foi assim até os anos 90 quando esta comissão conseguiu na justiça uma indenização de 52 milhões de dólares e pagamentos anuais de 15
milhões. Quase 70 anos de briga.

Hoje em dia a Grand Coulee ainda é a maior dos EUA e quinta do mundo. Também é a maior estrutura de concreto daquele país. Tem uma capacidade instalada de 6809 MW. Em fornecimento anual só perde para a usina de Palo Verde, sendo esta nuclear. A região do rio Colúmbia já foi responsável  por 40% da produção de alumínio dos EUA (17% do mundo) mas a oferta decrescente por conta das secas e a transformação da energia elétrica em commodity diminuiu esta produção em 80%. Mesmo assim a energia ainda é considerada barata, e grandes data-centers (inclusive o do google) estão migrando para a região.

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