O Jornal do Almoço da RBS TV (afiliada Globo no RS) deste sábado, dedicou os blocos iniciais inteiros para casos de solidariedade com 75 mil pessoas que passam fome e outras campanhas natalinas*. Sem notícias.
O programa especial de Natal que quer garantir um Natal melhor (nas palavras da Cristina) não informa. Durante o meu almoço, gosto de ouvir a TV e o que aconteceu na política, segurança, estradas e o clima. Sou um animal nascido e criado nos anos 70 e estes vícios não morrem. Gosto também de imagem impecável nos estúdios e nos links entre as geradoras, mas a mentalidade "geração conectada" impregnada nas cabeças pensantes da emissora permite links via celular. É moderninho aparecer na casa das pessoas com imagem de webcam importada da China, mesmo em uma TV Full HD. Corta para o comercial com famílias felizes ganhando antenas UHF para receber uma imagem melhor. É digital!
E aí vem a parte boa (ou ruim para a TV): Na hora do almoço de sábado, eu já recebi uma quantidade enorme de conteúdo selecionado e comentado por 1000 e poucos amigos de Facebook, uma quantidade incontável de páginas curtidas e conteúdos promovidos. Já sei muito bem o que aconteceu. Mas eu queria o único valor que uma emissora pode oferecer hoje em dia: a versão dos fatos. Este animal já entendeu que uma unidade móvel chegando primeiro na notícia é coisa de filme. Os abutres morreram e levaram junto os quero-queros. É só opinião.
Falando em conteúdo promovido, hoje em dia qualquer pequeno negócio pode mostrar a sua marca pagando R$3,00 para cada 1000 pessoas atingidas aqui no Facebook. Um custo muito inferior ao anúncio de televisão.
Este texto está acabando, o Jornal acabou e cortou para o comercial de uma farmácia. Não deu notícia, o "tempo" saiu curtinho, com nossa menina do mapa sendo cortada com um trocadilho de "tempo bom para fazer doações". O baile seguiu. Nada aconteceu entre o RBS Notícias de ontem e o nosso almoço de hoje.
Aos leitores que já xingam este autor por não ter coração e ser um chato que não vê a fome alheia: a premissa de todo o especial de Natal da RBS é a fome e as 200 mil pessoas que supostamente não têm o que comer só aqui no RS. "Uma cidade de Alvorada inteira". A Cantata Natalina de Passo Fundo (que mandou bem um Heal The World no estúdio) recebeu recursos públicos da ordem de R$90 mil. Compra(ria) muita comida. O dinheiro existe, circula entre muitas mãos e pode fazer o caminho do ponto A ao ponto B. Não podemos aceitar a possibilidade do assunto ser pano de fundo para outras questões ou fomento à luta de classes. Pessoas ficam sem comer pelos mais variados motivos, da doença até a escolha (ou a falta dela para os milhares de inocentes que nascem todos os dias). Em qualquer lugar.
Triste. Parece que o jornalismo de TV acabou e a única verba abundante será, no futuro, oriunda do governo, das administrações e das estatais, moldando o conteúdo de uma forma assustadora. Mas isto é assunto para outro textão. Já não tenho acesso à TV da sala. Minhas filhas vieram aqui e ligaram a Netflix.
*Desconsiderem o primeiro parágrafo. Foi o jornal inteiro.









