Em
“Extensão ou Comunicação” o autor faz uma revisão do significado real da
extensão rural, segundo sua visão, desde questões semânticas até o que deveria
fazer cada ator neste cenário. O livro não é de forma alguma indicado como
leitura de entrada ao tema ou até mesmo à obra deste autor, sendo perigoso
tentar diagnosticar prematuramente as razões de cada parágrafo, muitas vezes
contundente nas afirmações, com floreios que beiram a literatura de cordel. É
dado muito valor ao trabalhador rural e sua cultura é quase sempre inequívoca.
O agricultor é chamado de camponês ao êxtase, enquanto o agrônomo é um agente
que tenta persuadir a vítima com a mensagem técnica, a troca, o saber imposto.
Paulo Freire parece querer matar o mensageiro e não a mensagem.
Claro que a extensão rural deve ser
uma troca, mas o que teria a oferecer um grupo limitado por seu meio, cultura e
história quando precisa do saber oriundo da ciência? O que tem a oferecer um
pequeno agricultor que precisa da intervenção técnica destes agentes para a
implantação de uma simples cisterna ou do contrário morre de sede e mata aos
seus? É inegável o viés destruidor da imposição de novas formas do fazer para
comunidades inteiras, muitas vezes esta cura transitória pode ser considerada
uma mera transição para a aniquilação, mas é um meio certo para a mensagem
errada. O avião que leva o enfermo ao médico também bombardeia.
Em uma situação de supervalorização
de culturas novas no compasso de tempo do que entendemos por “mundo”, em
especial no interior do Brasil, um país com pouco mais de 500 anos, nem sempre
o que sabe o “camponês” reflete a verdade dos fatos. A formação do povo desde a
colonização, a entrada no continente e a criação das comunidades que hoje
conhecemos, está na mais tenra infância, e o conhecimento que vira cultura e
tradição já é maculado pelo poderoso invasor externo. A “espinha de peixe” já
está em Altamira, não há mais o que fazer. Se o habitante do rural já admite
por cultura o plantation na sua
propriedade de poucos hectares, está refém do sistema e compra leite, pão e
hortaliças no supermercado, o próprio ato de extensão para reversão e adoção de
outra agricultura praticada em épocas passadas (ou pior, em outros lugares) não
chegaria pela mesma persuasão tão combatida pelo autor?
Este saber camponês supervalorizado
apontado no livro parece desconexo do espaço. Exige um certo esforço aplicar o
ouvir quando o estado de carência técnica é causado não pela dúvida específica
desta ou daquela atividade agrícola ou com lidar com este ou aquele fenômeno da
natureza, mas pela fragilidade do que se entende por condições mínimas de
dignidade da pessoa humana. Existem situações onde não há o que se estender que
melhore a vida do camponês. Ou, caso o autor use o sentido clássico da palavra,
é prejudicada a troca em detrimento da dita colonização quando o mesmo não quer
mais ser camponês.
Resta saber mais sobre o autor,
situar sua realidade temporal, origem e propósitos. Se o mesmo escreve tratados
sobre a relação educador – conhecimento – educando através da pura ciência ou
luta em defesa de suas próprias crenças. Não há defesa contundente de um ponto
de vista sem o desejo oculto da derrota do contrário e da persuasão. Não há
transformação sem perda, nem a cultura de um povo pode ser considerada mantida
por trabalho semanal ordinário e dança folclórica nas datas festivas.
Infelizmente, o autor perdeu-se no
tempo. Sua obra é demasiado temporal. Exceto em Cuba. Ou não.
“Resenha
da Resenha”
Este
texto foi escrito sem uma única leitura de outras resenhas, sem influência externa,
apenas com o conhecimento sobre o autor (até o encontro deste livro). Nem mesmo
foi feita a (re) consulta a biografia de Paulo Freire e a história de sua vida,
para entender na formação do autor as razões para as visões colocadas no livro.
Foi uma opção. A expressão “espinha de peixe” vem do filme “Bye Bye Brasil”,
vale a pena assistir. Disponível apenas nas locadoras mais velhas. A música
tema é de Chico Buarque, de mesmo nome.
